Por AMS - Aleitamento Materno Solidário
Por Dra. Andréia Cristina Karklin Mortensen, neurocientista e
membro da nossa comunidade.
Diante a tantos relatos de desmames abruptos e precoces que não
resultam em melhoria no sono, pelo contrário, resolvi agrupar
informações sobre desmame abrupto e possíveis consequências para a
mãe e a criança. Espero que sirvam para reflexões gerais na
comunidade. O desmame abrupto é extremamente traumático para toda a
família e isto infelizmente ainda é comum: algumas mães deixam de
dar o peito de uma hora para outra, com soluções drásticas como
dormir fora e deixar a criança aos cuidados de parentes, aplicar
produtos desagradáveis nos seios para que a criança os rejeite pelo
gosto ou ainda com mentiras, enganações e choques visuais, como
exemplo usar um band-aid nos seios e dizer à criança que estão
machucados.
A amamentação é algo TÃO importante na vida da mãe e da criança,
foi o início de comunicação entre mãe e filho, foi fonte de
nutrição, de afeto e não deve terminar de uma maneira brusca, com
artifícios, enganações, mentiras, fazendo com que a criança talvez
se sinta culpada por ferir sua mãe. Essa é uma responsabilidade e
culpa enormes que são transferidas para o filho no evento de um
desmame repentino. Quando perde o peito de repente, a criança se
sente desolada, sofrendo uma perda, pode se sentir rejeitada pela
mãe, gerando insegurança e muitas vezes rebeldia. A perda repentina
do seio materno pode causar trauma emocional na criança, já que
amamentação não é somente fonte de nutrição para o bebê, mas fonte
de segurança e conforto emocional também. Não há absolutamente como
explicar a um bebê que repentinamente não pode mamar mais.
Desmames abruptos não permitem que ambas partes físicas e
emocionais de mãe e filho sejam trabalhadas gradualmente. Por outro
lado, ao promover um desmame gradual podem-se compensar aos poucos
outros tipos de atenção para compensar a perda do contato íntimo da
amamentação. Na mãe, o desmame abrupto pode resultar em
ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além
de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por
mudanças hormonais. Depressão pode surgir por um decréscimo abrupto
dos níveis hormonais maternos, portanto mães com história anterior
de DPP devem especialmente atentar para as consequências de um
desmame abrupto.
O desmame deve ser natural, consensual, em acordo entre mãe-filho,
isto é, haverá um tempo e um ritmo próprio, um período da vida da
mãe e do filho em que ambos aprendem a dar e receber alimento,
aconchego e a se comunicarem de uma maneira nova, que não com os
seios. São, portanto, três elementos a serem considerados de grande
importância na amamentação: nutrição, afeto e comunicação. Quando
ambos três itens estão plenamente supridos sem a amamentação num
processo de autonomia e maturidade vindo da criança, um desmame
gradual pode ser promovido. Em outras palavras, deve ser resultado
de uma maturidade da criança e não uma imposição da mãe ou de
outros familiares ou conhecidos, ou ainda médicos.
No segundo ano de vida a criança necessita de vários estímulos,
brincar, cantar, dançar, adquire destrezas motoras, e começa o
linguajar, que é uma forma poderosa de comunicação. Quando uma
criança está em um ambiente seguro, rico em estímulos recebe
carinho e atenção também do pai, ela está mais apta ao desmame
total com facilidade.
Em termos de desenvolvimento, um desmame antes de 2-3 anos é
precoce, o bebê ainda precisa mamar, ainda está em processo de
individualização, ainda está na fase oral, os benefícios são
muitos, enquanto que a troca por objetos para saciar a necessidade
oral não apresenta vantagem alguma. As consequências para o cérebro
em desenvolvimento de um bebê que é submetido a mudanças
permanentes e abruptas, com interferência de estranhos, choro sem
consolo, negação de afeto e as violência emocional podem ser
drásticas.
Bons vínculos
Texto de Claudia Rodrigues, jornalista e terapeuta reichiana, sobre
desmame e vínculos:
"O desmame abrupto é o pior dos desmames. Quando a mãe retira a
criança do peito forçando a introdução da mamadeira retira da
criança um prazer evidente e inimitável, cujo calor, textura,
cheiro e sabor jamais serão imitados. A criança pode acostumar com
o objeto substituto do seio, a mamadeira, e com o novo líquido não
apresentando qualquer sintoma imediato, mas é bastante comum que
poucos meses após um desmame abrupto comecem a ocorrer distúrbios
de comportamento alimentar. Mais cedo ou mais tarde a decepção por
ter perdido algo que era tão caro à criança, começa a ser
processado. As somatizações, como alergias e intolerâncias a
alimentos nem de longe são os piores sintomas. Pode ter menos sorte
psíquica à criança que não somatiza nos primeiros anos. O mais
cruel e nocivo dos desmames abruptos é aquele que faz com que a
criança prove no seio da mãe algo ácido, azedo ou amargo,
especialmente quando isso é associado a uma visão terrível (seios
pintados, com band-aid, etc.) do seio, objeto que até então só
trazia prazer e que aparece repentinamente como algo assustador.
Esses sentimentos e impressões ficam inscritos no córtex para o
resto da vida, a confusão entre prazer e desprazer ficará gravada e
um dos sintomas mais comuns será a inabilidade da pessoa para
acreditar que merece prazer e que ele pode ser algo perene,
confiável. Perdurará a impressão de que o prazer pode a qualquer
momento virar uma ameaça. Nos piores casos a pessoa não consegue
buscar o prazer, já caminha diretamente para a punição. A
amamentação é o prazer absoluto do bebê e ele deve aos poucos,
conforme for crescendo, colocar outros prazeres em sua vida até
sentir-se apto para se desligar desse primeiro vínculo com sua
pulsão pelo prazer. A mãe pode retirar o peito, mas isso deve ser
feito gradualmente, jamais via truques mirabolantes com requintes
de perversão e sabotagem ao prazer do bebê".
Não inicie um processo de desmame em momentos conturbados na vida,
como início de escola, retorno da mãe ao trabalho, separação dos
pais, mudança de casa, doença ou qualquer situação de grande
mudança.
Texto excelente de Dra. Elsa Giuliani, pediatra, presidente do
Departamento de Aleitamento Materno da SBP, trecho
pertinente:
"Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos
últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de
10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje.
Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de
desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse
processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de
encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança.
Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e
enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida,
"ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade".
Fonte:http://www.sbp.com.br/show_item2.cfm?id_categoria=21&id_detalhe=1845&%3Btipo_detalhe=s
Recomendo a leitura das reflexões de Fernanda, nossa moderadora (da
comunidade Grupo Virtual de Amamentação, do ORKUT):
"Desmamei a minha mais velha abruptamente com 1 ano e 4 meses.
Coisa que demorei a perceber que não foi legal. Durante um tempo,
tive o discurso do "era a única forma, foi o melhor para ambas e
não deixou sequelas". Mas consegui felizmente rever minha posição
(infelizmente não posso voltar no tempo para desfazer as coisas).
Eu me sentia extremamente cansada, ela acordava diversas vezes para
mamar, dormia mal, comia mal. O desmame noturno (era essa minha
intenção inicial) parecia a solução para os meus problemas.
Apliquei uma espécie de Dr. Gordon (nem conhecia na época), mas no
último estágio já. Decidi que ela não mamaria de meia noite às seis
da manhã. Obviamente que ela pediu para mamar e eu neguei e ela
chorou bastante. Pelo menos não ficou sozinha, eu fiquei com ela no
colo tentando ninar, até que dormiu, mas quase às cinco da manhã.
No dia seguinte ainda mamou algumas vezes e no terceiro dia não
pediu mais, nem de noite nem de dia. E eu pensei, meus problemas
acabaram. Ledo engano. Ela continuou a comer mal e acordar todas as
noites durante mais 1 ano quase. Analisando hoje, percebo que ela
vinha de um rotavírus (com 1 ano e dois meses), quando ficou
praticamente só peito por quase 15 dias e do carnaval, quando
ficamos juntas durante 1 semana. Depois retornei ao trabalho e ela
à creche, e obviamente que ela transferiu todo esse contato para a
noite. Na época, o cansaço extremo e a falta de apoio (já que eu só
ouvia "ela é muito grande para ainda mamar") fizeram com que eu não
enxergasse o óbvio. O desmame ainda trouxe outros problemas, como a
alergia ao LV. Hoje, tenho a oportunidade de fazer diferente com a
mais nova, agora com 1 ano e 3 meses, igualmente alérgica a LV (mas
no caso dela mais grave, a alergia manifestou-se ainda
recém-nascida e faço dieta de LV e derivados desde então).Ela é uma
menina feliz, esperta, independente, embora um pouco insegura com
grupos e lugares novos, especialmente sem minha presença. Acredito
que o desmame abrupto não a impediu de avançar em vários aspectos,
mas que também não foi inocente e salvador como já cheguei a
acreditar. Também preciso dizer que o desmame abrupto trouxe
problemas para mim. Duas mastites seguidas, tamanha a quantidade de
leite que ainda produzia, mesmo sem estímulo, e ainda precisei
tomar remédio para secar".
Palavras da pediatra Dra. Relva sobre desmame repentino:
"O bebê mama não só para se alimentar, mas para criar um ambiente
'interno' benigno, de chamado á vida.
"Aparentemente, após algum tempo o indivíduo será capaz de
constituir memórias de experiências sentidas como boas, de modo que
a experiência da mãe sustentando a situação torna-se parte do eu, é
assimilada dentro do ego" / Winnicott. Então, amamentar vai muito
além das proteínas, gorduras e sais minerais".
Peito é peito, é natural, é o primeiro contato que o bebê tem, é
sua fonte de nutrição e de sucção não nutritiva natural também.
Chupeta é uma imitação pobre e artificial do peito, e veio depois
do peito, foi inventada. Portanto, na verdade o bebê não faz o
peito de chupeta, ele faria a chupeta de peito. No peito ele mama,
tem o aconhego dos braços da mãe, leitinho, conforto. Na chupeta
não tem nada disso, é somente um objeto borrachudo sem cheiro,
contato materno, aconchego da mamãe.
Nesse tópico: "Mitos de amamentação realidades", da Comunidade do
Orkut, há trechos pertinentes:
Mito 13: Sugar sem o propósito de alimentar-se (sucção não
nutritiva) não tem objetivo.
Realidade: As mães com experiência em amamentação aprendem que os
padrões de sucção e as necessidades de cada bebé variam. Ainda que
as necessidades de sucção de alguns bebés sejam satisfeitas
primordialmente quando mamam, outros bebés requerem mais sucção ao
peito, mesmo quando tenham acabado de mamar a alguns minutos.
Muitos bebés também mamam quando têm medo, quando se sentem sós ou
quando sentem alguma dor.
Mito 14: As mães não devem ser a "chupeta" do filho. Realidade:
Consolar e suprir as necessidades de sucção ao peito é o que
preparou a natureza para mães e filhos. As chupetas são um
substituto da mãe quando ela não está. Outras razões para oferecer
a mama para acalmar o bebé incluem um melhor desenvolvimento oral e
facial, o prolongamento da amenorreia, evitar a confusão de sucção
e estimular uma produção adequada de leite que assegure um índice
mais elevado de êxito da amamentação. Além disso, um bebé tranquilo
que encontra consolo em sua mãe terá um desenvolvimento emocional
fortalecido.
Desmames não promovem independência, pelo contrário. O peito não é
responsável pelo comportamento do bebê, e sim a própria FASE de
desenvolvimento que se encontram e atitudes materna e
paterna.
Leituras essenciais:
A necessidade do apego - A Ciência da Paternidade
Tradução de um capítulo do livro "The Science of Parenting":
"Os mamíferos jovens se apegam a um adulto que lhes inspira
confiança quando se sentem inseguros. Alguns pais se irritam quando
seus filhos são apegados, os animais não".
Quando uma criança se agarra a um adulto, ela tenta reduzir o seu
alto grau de excitação física e seus elevados níveis de substâncias
químicas estressantes. Ao mesmo tempo, tenta ativar as preciosas
substâncias cerebrais que produzem sentimentos de bem-estar. Ela
não pode conseguir sem sua mãe, que é sua base neuroquímica
infalível. A criança não é mimada nem quer "chamar a atenção"
quando se agarra. Ela se sente insegura e procura ajuda. Ao
agarrar-se, ela pretende um equilíbrio emocional mais tranquilo e
positivo.
O que revelam as pesquisas
Os estudos demonstraram que quando a criança cumpre um ano, as mães
que tinham atendido rapidamente o seu choro tinham filhos que
choravam muito menos que aquelas que haviam optado por deixar
chorar. Apesar de que alguns pensam que as crianças se apegam
porque foram muito mimadas e queridas, "mal acostumados" por
excesso de atenção, não há provas que corroborem a teoria segundo a
qual o apego ansioso é resultado do afeto e atenção excessivas por
parte dos pais. O apego prolongado é muito mais provável quando os
pais não responderam bem às necessidades de dependência do seu
filho. Alguns pais obrigaram a criança a ser independente enquanto
ela ainda não se encontrava geneticamente madura para isso.
Quando deixa de ser apegado?
Os pais muitas vezes temem que o desconsolo de seus filhos no
momento da separação não desapareça. Mas, quem ouviu falar de um
adolescente que se desfaça em lágrimas quando seus pais lhe dizem
que vão ao cinema de tarde? Quando a criança cresce, o sistema de
angústia da separação do seu cérebro inferior se debilita de forma
natural. Na puberdade, o aumento de testosterona e de estrogênios o
suprimem mais ainda. A afirmação: "Se aceito que ele se apegue
tanto agora, ele nunca vai ser independente" é inexata em termos de
desenvolvimento físico e cerebral da criança.
Algumas crianças que não receberam uma resposta emocionalmente
válida entram num estado de falsa independência. Eles têm profunda
vergonha de sentir uma necessidade desesperada de afeto e
deparar-se com um rechaço ou uma crítica, ou que lhes digam que já
são grandinhos para isso. Para fazer frente a essa dor, algumas
crianças adotam uma atitude de: "Não preciso da mamãe!", endurecem
seus corações e desenvolvem uma insensibilidade emocional para suas
necessidades afetivas. Isso pode provocar todo tipo de desgraças,
de amores atormentados ao medo às relações íntimas na idade
adulta.
Se o seu filho se agarra a você, lembre-se do grande investimento
que você fará na sua saúde mental a longo prazo se você lhe
responde com afeto e consolo. Lembre-se dos efeitos duradouros
anti-estresse da ativação da ocitocina, que deriva do afeto físico.
Lembre-se dos estudos de outros mamíferos, que demonstram que os
bebês que recebem carícias afetuosas são mais capazes de afrontar o
estresse, apresentam respostas muito menos temerosas frente à vida,
são psicologicamente mais fortes e até envelhecem melhor!
A NATUREZA DA DEPENDÊNCIA
Recentemente, conversei com uma amiga que teve seu primeiro bebê há
seis meses. Essa amiga comentou que iria começar a dar a mamadeira
para seu bebê de forma que ele pudesse ter comida sempre que
desejasse. O que eu realmente pude sentir foi que ela creditava que
poderia, através disso, ensinar seu bebê a ser mais independente e
que, por isso, talvez, sentisse que a dependência de sua criança
fosse causada por uma deficiência dela. Nota-se que minha amiga
partilha das concepções erradas que existem atualmente de que a
dependência é ruim e a independência é algo que pode ser ensinado.
Mas ai existe um engano. A independência é uma condição que surge
da própria relação da criança com a dependência.
Nós temos um preconceito cultural muito grande em relação à
dependência. Qualquer emoção ou comportamento que indique fraqueza
representa dependência. Isto fica evidente na maneira como nós
forçamos nossas crianças a realizarem coisas que estão além de seus
limites pessoais. Com isso, estamos afirmando que os padrões
externos são mais importantes que a experiência interna da criança.
Fazemos isso quando desmamamos nossas crianças em vez de confiar e
acreditar que elas possam fazer isso por sua própria conta e na
hora certa; quando nós insistimos que nossas crianças se sentem à
mesa e comam toda a comida só porque achamos que o alimento que
escolhemos é mais saudável e eficiente, em vez de confiarmos, que
eles comerão bem, comendo o que está de acordo com o apetite deles;
e quando nós os treinamos para a higiene numa idade muito precoce
em vez de confiar que eles aprenderão usar o banheiro quando eles
estiverem neurologicamente prontos.
Quando nós, que somos pais, assumimos que sabemos o que é melhor
para nossas crianças no que diz respeito à experiência interna
deles, e que somos nós que temos que lhes mostrar quando e como
realizar determinadas tarefas características do desenvolvimento
humano básico, nós os ensinamos que os padrões externos são mais
importantes e mais precisos do que os que eles sentem e
pensam.
Dois estudos científicos recentes refletem este preconceito
cultural que despreza a fraqueza e a dependência das crianças. Um
dos estudos comparou crianças que iam ser e estavam no colo de suas
mães e crianças que foram vacinadas sem a presença de suas mães. As
crianças que foram vacinadas na ausência de suas mães choraram
muito menos. De posse desses dados, os investigadores concluíram
que seria melhor que os pediatras desencorajarem a presença das
mães durante vacinação porque as crianças poderiam controlar melhor
suas reações às injeções na ausência delas. Obviamente, os
investigadores deste estudo foram parciais no que diz respeito às
expressões emocionais e acreditaram que a expressão emocional das
crianças sob tensão era uma forma de fraqueza.
Minha experiência é bem diferente. Eu notei que meus quatro filhos
comportam-se de formas diferentes quando nós estamos em viagens ou
estamos longe de casa. Nas viagens, eles controlam bem coisas, se
dão bem entre si, e aceitam horas irregulares de sono irregulares
ou mudanças na alimentação, mas ao voltar para casa é que as coisas
mudam. Em casa, eles brigam, choram, e brincam. Eu acredito que
esse é um comportamento normal para pessoas de todas as idades. É
comum que as pessoas se unam quando enfrentam uma situação
estressante ou então, isolarem-se e mesmo brigarem quando estão em
território seguro. Para uma criança, o território seguro é a casa,
a mãe, ou o pai.
Então, era perfeitamente normal para aquelas crianças que iam ser
vacinadas, chorassem sob a tensão da experiência, na presença de
suas mães. A presença das mães dava-lhes liberdade e confiança para
que chorassem. A conclusão deste estudo poderia ser: Que é melhor
que as mães das crianças estejam presentes quando as crianças forem
vacinadas. Assim elas podem controlar melhor a sua experiência de
sentir medo, expressando-o.
Um estudo administrado por Margaret Burchinal da Universidade de
Carolina do Norte em Chapell Hill, e publicado em fevereiro 1987 na
Psychology Today, compararam crianças jovens que foram cuidadas em
casa por suas mães desde o nascimento, com outras crianças que
haviam ficado em creches desde a tenra infância. Este estudo
concluiu que as crianças criadas fora de casa pareciam menos
inseguras do que aquelas que haviam ficado em casa com suas mães.
Poderíamos discutir que o que "parece" ser insegurança é uma
avaliação subjetiva que não tem bases cientificas. Minha
experiência diz que a insegurança é uma resposta absolutamente
"apropriada" e normal. As crianças jovens são especialmente
sensíveis a pessoas novas em seu ambiente, e esta sensibilidade
muda na medida em que seu ambiente se altera. Por exemplo, cada um
de meus filhos relaciona-se de forma diferente com estranhos. Esta
diferença está diretamente ligada com quantas pessoas nós
encontramos fora de nossa casa. Meu quarto filho que cresceu
fazendo contato com muitas pessoas que trabalhavam comigo na
revista, às vezes parece uma criança mais segura do que minha
primeira filha que foi criada num ambiente rural, onde era vivia
mais isolada.
As pessoas que estudam animais lhe dirão que bebês animais,
conhecidos por sua curiosidade, são mais cautelosos que curiosos.
Seria a precaução ou a cautela consideradas uma forma de
insegurança? Às vezes agimos como se desejássemos que nossas
crianças "surgissem do útero", completamente socializadas, e não
aceitamos as experiências que elas têm com o mundo e nem suas
personalidades individuais. Mas é simplesmente o passar do tempo
que desenvolve a socialização. Não há como apressar isso sem causar
problemas.
Quando rejeitamos as expressões de fragilidade da criança -
comportamento que nós também rejeitamos em adultos - nós criamos
uma guerra dentro delas. Em primeiro lugar, nós estabelecemos um
padrão arbitrário de comportamento que pretende determinar o que é
melhor para que eles possam construir a própria experiência. Por
outro lado, nós lhes ensinamos o hábito de rejeitar respostas
imediatas e afetivas em favor da razão e do intelecto.
Foi só recentemente que eu comecei a aprender a aceitar as emoções
mais "frágeis" de meus filhos. Quando minha primeira filha (agora
com 12 anos) era um bebê, eu ficava assustada cada vez que ela se
feria. Eu corria para acudi-la porque eu achava que aquela era uma
experiência terrível com qual ela não tinha condições de lidar.
Minha resposta exagerada ensinou minha filha a acreditar que se
ferir, era uma experiência terrível e insuportável. Já com meu
quarto filho eu agi diferente. Quando se fere, ele faz um tremendo
barulho. Mas eu não corro ou fico em pânico. Eu não tento fixar
nele ideias ou sentimentos que são meus. Ela grita e corre, e eu
tive que me treinar para deixa-la se arranjar. Aceitando sua
resposta emocionalmente rica, e tratando o dano que ela sofreu com
carinho e sem indiferença, observei que sua reação emocional
"extrema" normalmente é curta. Quando ela pode sofrer sua realidade
emocional completa, ela logo fica livre para abandona-la e entrar
em contato com outras realidades que vão surgindo nos momentos
seguintes.
Certamente, algum controle de nossos impulsos internos é necessário
na medida em que vivemos como seres sociais. É através desse tipo
de controle que nós aprendemos o que é um comportamento socialmente
aceitável como, por exemplo, usar um banheiro, comer com uma
colher, e vestir determinadas roupas. Mas quando este controle da
experiência interna pelo intelecto torna-se moralista em vez de ser
socializada e prática, quando fica muito extremada, ou quando nós
insistimos constantemente em fazer nossos filhos a acreditar que
nós sabemos o que é melhor para eles, nós lhes roubamos o direito
inato e essencial da auto-regulação.
A criança que cresce com essa falta de senso de auto-regulação,
desconfiada de si própria e de sua própria experiência interna,
pode se tornar um adulto vitimado por hábitos ruins. Quando eu olho
à minha volta e vejo a maioria das pessoas lutando com
comportamentos compulsivos - comendo demais, sendo excessivamente
responsáveis, fumando cigarros, tomando drogas, se matando de
trabalhar, se embebedando com álcool ou que vivem em busca de um
guru - tentando de algum modo achar a perfeição fora de si próprio
ou tentando se esforçar obsessivamente para encontrar a
"perfeição".
Eu acredito que estas compulsões e hábitos têm suas origens nas
repressões aparentemente bem planejadas da infância. Uma criança a
quem é ensinado exercitar o controle se utilizando padrões
externos, cria uma divisão interna que gera conflitos entre o que é
imediatamente experimentado e o que se supõe que poderia ser.
Aprende a acreditar que há um modo perfeito de ser.
Nossa função como pais, é entender e honrar a natureza de
dependência na criança. Dependência, insegurança, e fraqueza são
estados naturais para a criança. A bem da verdade, estes são
estados naturais para todos nós, mas para as crianças - as crianças
especialmente jovens - são condições predominantes. E eles serão
superados. Da mesma maneira que nós deixamos de engatinhar e
começamos a andar, deixamos de balbuciar e começamos a falar,
passamos da condição assexuada da infância para a sexualidade da
adolescência, nós atingimos nosso fins. Como humanos, nós nos
movemos da fraqueza para a força. Nós passamos da incerteza ao
domínio. Enquanto nós nos recusarmos reconhecer as fases que vem
antes do domínio, estaremos ensinamos para nossas crianças a odiar
e desconfiar de sua própria fraqueza, e os introduzimos numa vida
cheia de tentativas de reintegrar as suas personalidades.
Eu não posso insistir na importância de confiar em nossos filhos;
de confiar inteiramente neles. Ao aceitarmos as fraquezas deles
como também as suas forças, suas emoções feias como também as suas
emoções bonitas, os seus desastres, como também os seus triunfos, a
dependência deles como também a sua independência, estaremos lhes
dando um presente para uma vida inteira Eles serão pessoas inteiras
que não estarão em conflito consigo mesmo e, o que é mais
importante, não estarão em guerra com outros.
É da natureza da criança ser dependente, e é da natureza da
dependência ser superada. Odiar a dependência porque ela não é
independência é o mesmo que odiar o inverno porque ele não é a
primavera. A dependência vai florescer em independência a seu
próprio tempo.
Texto de Peggy O'Mara, Editora da revista Mothering
(Maternagem)
E o se o bebê não quer comer?
O desmame não vai melhorar o apetite do bebê, pois é natural e
esperado que depois de 1 ano seu apetite diminua mesmo, conforme
sua fase de desenvolvimento. Veja explicações do Dr. Gonzalez
abaixo:
Importante: Porque param de comer com um ano
Extraído do livro "Mi Niño No Me Come", do Dr. Carlos
González
Os bebês comem, em relação ao seu tamanho, muito mais que os
adultos. Isso significa que, no processo de tornar-se adultos, cedo
ou tarde terão que começar a comer menos. Mais cedo, que tarde,
para surpresa e terror de muitas mães. Os bebês costumam "deixar de
comer", aproximadamente ao fazer um ano. Alguns já deixam de comer
desde os nove meses, outros "aguentam" até um ano e meio ou dois
anos. Uns poucos nunca deixam de comer, enquanto outros "nunca
comeram bem, desde que nasceram".
O motivo dessa mudança por volta do primeiro ano é a diminuição da
velocidade do crescimento. No primeiro ano, os bebês engordam e
crescem mais rapidamente que em qualquer outra época da sua vida
extra-uterina. Durante o segundo ano, diferentemente, o crescimento
é muito mais lento: uns nove centímetros e um par de quilos. Assim
temos que, dos três principais capítulos do gasto energético, a
energia necessária para movimentar-se aumenta, porque o bebê se
move mais e a necessária para manter-se com vida também aumenta,
porque o bebê é maior. Mas a energia necessária para crescer
diminui de forma espetacular e o resultado é que muitos bebês
necessitam comer o mesmo ou menos. Segundo cálculos de
especialistas, os bebês de um ano e meio comem pouco mais que os de
nove meses. Os pais, não informados deste fato, fazem um cálculo
aparentemente lógico: "Se com um ano come tanto, com dois comerá o
dobro". Resultado: uma mãe tentando dar o dobro de comida a um bebê
que precisa da metade ou menos. O conflito é inevitável e
violento.
"Até quando ficam sem comer?" A situação costuma ser transitória.
Aconselhadas por avós, vizinhas e pediatras, as mães costumam
pensar que seus filhos "mudarão". De fato, muitas crianças com
cinco ou sete anos, ao aumentar seu tamanho corporal, começam a
comer um pouco mais que antes. Mas, nem sempre este pequeno aumento
é suficiente para suprir as aspirações de suas famílias. Por uma
parte, a quantidade de alimento que cada pessoa precisa é muito
variável e algumas crianças comem mais ou muito menos que seus
colegas da mesma idade e tamanho. Por outra parte, as expectativas
dos pais podem ser também muito distintas: algumas mães se
conformariam que seu filho coma todo o macarrão do prato, outras
esperam que além do macarrão coma também um bife com batata, uma
banana e um iogurte. Por um motivo ou por outro, muitas crianças
continuam sem comer até o início da adolescência. Então, quando o
lento crescimento dos anos anteriores se transforma na espichada,
os moleques sentem um apetite insaciável e para espanto e alegria
de suas mães assaltam a geladeira e metem tudo o que encontram
dentro de um sanduíche.
E se o bebê acorda constantemente depois de 1 ano para mamar?
Precisamos analisar sua rotina (ou falta de), apego e proximidade
entre mãe e filho, alimentação (produtos industrializados e
açucares prejudicam o sono), existência de ritual de sono, sonecas
restauradoras, maneira de adormecer, uso de TV e outros
fatores.
No caso de confirmarmos uma associação de sugar para dormir existem
alternativas suaves para desmame noturno, mantendo-se a amamentação
durante o dia, como RG (Técnica da Remoção Gentil) e plano do Dr.
Gordon:
"Se o seu bebê está acordando a cada 1 ou 2 horas para ser
amamentado ou tomar mamadeira, ou localizar a chupeta, você deve
estar se perguntando o que exatamente está fazendo com que ele
acorde com tanta frequência. A realidade é que breves acordadas
durante a noite é uma parte normal do sono humano, independente da
idade. Todos os bebês experimentam isso. A diferença em relação ao
seu bebê, que exige cuidados noturnos a cada 1 hora ou 2, é que ele
está envolvendo você em todos os momentos em que seu sono fica mais
leve.
Seu bebê está fazendo uma "associação para o sono", quando
relaciona certas coisas com o momento de adormecer e acredita que
precisa dessas coisas para conseguir dormir. O meu bebê, Coleton,
levava muito tempo em seus primeiros meses nos meus braços, com sua
cabecinha subindo e descendo ao ritmo do teclado do meu computador.
Desde o primeiro momento em que nasceu, ele dormia ao meu lado,
sendo alimentado para dormir a cada cochilo ou durante a noite.
Quando percebi, ele estava com 12 meses, e total e firmemente
agarrado a uma associação de "amamentação-para-poder-dormir".
O seu bebê, como o meu Coleton, aprendeu a associar o ato de sugar
(tendo o seu bico ou a mamadeira ou a chupeta em sua boca) com o
ato de dormir. Eu ouvi um sem-número de especialistas do sono se
referir a isso como "associação negativa para o sono". Eu e meu
bebê certamente discordamos! Esta é provavelmente a mais positiva,
natural, e prazerosa associação para dormir que o bebê pode fazer.
O problema com esta associação não é associação em si, mas a nossa
vida tão atarefada. Se você não tivesse mais nada a fazer além de
cuidar do seu bebê, esta seria uma forma muito gostosa de passar os
dias e noites até que seu bebê superasse essa necessidade. Afinal
de contas, isso é natural. Você talvez nem veja isso como um
problema, porque aliás não é. É tudo uma questão de percepção e de
suas necessidades pessoais.
Entretanto, em nosso mundo, poucos pais podem se dar ao luxo de
colocar tudo de lado até que os bebês cresçam. Com isso em mente,
eu vou sugerir algumas ideias para que você possa gradualmente, e
com amor, ajudar o seu bebê a aprender a adormecer sem essa
poderosa ajuda.
Para seguir os passos de mudar a associação para dormir do seu
bebê, você vai precisar complicar um pouco as noites, mas no final
da jornada você pode conseguir que ele não precise mais da chupeta,
da mamadeira ou do seu seio como sua única associação para a hora
da cama. Em outras palavras, prepare-se para interromper suas
próprias noites por um período em troca de conseguir mudanças
importantes, valiosas e de longo prazo.
O plano de Remoção Gentil de Pantley
Quando seu bebê acordar, vá em frente e lhe dê a chupeta ou a
mamadeira, ou o amamente. Mas, em lugar de resolver tudo e voltar
para a cama ou deixar que ele adormeça no peito, deixe-o sugar por
alguns minutos até que o ritmo diminua e ele comece a relaxar para
dormir. E então interrompa a sucção com o dedo e gentilmente retire
a chupeta ou o bico.
Quase sempre, e especialmente nas primeiras vezes, o seu bebê vai
se assustar e se voltar para o bico. Tente muito gentilmente manter
sua boquinha fechada, colocando seu dedo sob o queixo do bebê,
mantendo uma pequena pressão, ao mesmo tempo em que o vai
acalentando ou ninando. Se ele lutar contra isso e chorar pedindo
por você ou a mamadeira ou a chupeta, vá em frente e dê a ele o que
ele quer (chupeta, mamadeira ou o peito), mas repita o processo
tantas vezes quanto seja necessário até que ele adormeça.
Quanto tempo devo esperar até retirar a chupeta, bico ou mamadeira?
Cada bebê é diferente, mas cerca de 10 a 60 segundos entre as
retiradas normalmente funciona. Você também deve observar o ato de
sugar do seu bebê. Se o bebê suga com força ou engole regularmente
quando está sendo alimentado, espere mais alguns minutos até que
ele diminua o ritmo. Normalmente após o primeiro impulso de
atividade, seu bebê vai diminuir para um ritmo mais relaxado, e
mais "trêmulo"; esta é uma boa hora para começar a técnica da
Remoção Gentil.
Isso pode levar de duas a dez (ou até mais) tentativas, mas
eventualmente o seu bebê vai adormecer sem a chupeta ou o bico em
sua boca. Quando isso acontecer um número de vezes por um período
de dias, você vai notar que a técnica da remoção vai ficar muito
mais fácil, e as acordadas durante a noite serão menos
frequentes.
"Nós chamamos isso de "the Big PPO (Pantley-Pull-Off)" [o Grande
Puxão de Pantley]. No começo Joshua pressentia o que ia acontecer e
agarrava meu bico com força por antecipação - ai! Mas você disse
para persistir, e eu fiz. Agora ele pressente o PPO e na realidade
deixa acontecer e se vira de lado e vai dormir! Eu estou
verdadeiramente impressionada." - Shannon, mãe de Joshua, de 16
meses
Se o seu bebê não dorme bem durante o dia, não se preocupe em
utilizar a Remoção Gentil para os cochilos durante o dia. Lembre-se
que cochilos regulares significam melhores noites de sono - e
melhores noites de sono significam melhores cochilos diurnos. Só
quando seu bebê começar a dormir melhor durante a noite, você deve
então trabalhar em relação aos cochilos do dia.
A melhor hora para usar o Plano de Remoção Gentil de Pantley é o
primeiro adormecer da noite. Geralmente o modo como seu bebê
adormece vai afetar o resto de suas acordadas pela noite. Eu
suspeito disso por causa da associação para o sono que expliquei
antes. Parece que a forma como o bebê adormece é como ele espera
ficar por toda a noite.
Pare de alimentar um bebê adormecido
Eu sou uma seguidora da regra de "nunca deixar o bebê chorando", e
levei isso muito a sério. O que eu não entendi, embora, é que os
bebês produzem sons enquanto dormem. E esses sons não significam
que o bebê precisa de você. Os bebês gemem, grunhem, fungam,
resmungam e até choram enquanto dormem. E podem até mesmo ser
alimentados sem acordarem.
O próximo passo para ajudar seu bebê a dormir por períodos maiores
é determinar a diferença entre os barulhos do sono e o choro de
quem está acordado. Quando ouvir um barulho: Pare. Ouça. Espere.
Olhe. Quando ouvir atentamente os barulhos do bebê, e observar,
você vai aprender a diferença entre os ruídos do sono e os ruídos
do tipo "Estou acordando e preciso de você agora".
"Noite passada eu o estava alimentando e retirei o bico e coloquei
o dedo em seu queixo. Eu estava pensando, "Isso nunca vai
funcionar; ele vai ficar louco!" - mas funcionou, e ele foi dormir!
O outro truque também está funcionando. Quando eu o retiro do peito
e deito de lado, ele pensa que estou dormindo, e vai dormir também!
- Carol, mãe de Ben, de 9 meses
Mudando a sua rotina
Geralmente nós temos uma rotina que temos seguido com nosso bebê
desde o nascimento. O passo final antes de dormir é sempre
amamentar ou dar uma mamadeira. Alguns bebês continuam com este
padrão e ainda dormem durante a noite. Outros, entretanto, precisam
de uma mudança nesse último passo antes de conseguirem dormir a
noite toda.
O que você deve fazer é dar uma olhada objetiva em seus passos
finais da rotina de colocar o bebê para dormir e fazer algumas
mudanças, se necessário. Você pode usar massagem, carinhos ou
músicas de ninar para ajudar seu bebê a adormecer. Eventualmente
estes passos vão substituir a mamada ou a mamadeira, e aos poucos
os dois ficarão mais suaves, e seu bebê vai estar dormindo por
períodos mais longos.
"Eu mudei a forma de colocar Carlene para dormir, e está
funcionando! Em vez de alimentá-la até dormir, eu só a amamento até
que fique relaxada e depois deixo que faça o que quiser no quarto
em penumbra comigo. Quando ela esfrega os olhinhos e parece com
sono, eu a coloco em seu berço. Eu fico lá, ao lado do berço,
incentivando-a a dormir. Eu digo, 'Shhhhh, está na hora de dormir,
feche os olhinhos, garotinha sonolenta', e digo a ela que vai ser
bom dormir. Eu acaricio sua cabeça ou sua barriga. Ela fecha os
olhos bem na hora em que faço isso. Está sendo uma grande
novidade." - Rene, mãe de Carlene, de 7 meses
Paciência, paciência, e um pouco mais de paciência
Respire fundo e repita comigo: "Isso tudo vai passar". Você está no
meio do furacão agora, e está difícil. Tenha em mente que a
aparente falta de habilidade do seu bebê em dormir sozinho não é
culpa dele. Ele vem fazendo as coisas dessa maneira desde que
nasceu, e ficaria completamente feliz em manter tudo como está. Seu
objetivo de ajudá-lo a se sentir amado e seguro enquanto descobre
formas de adormecer sem precisar de você - sem que você caia na
tentação de deixá-lo chorando sozinho no escuro - é admirável. Você
tem estas melhores intenções em seu coração. Seja paciente, siga as
sugestões para ajudar seu bebê, e quando menos esperar, ele estará
dormindo como um anjinho. E você também. Então suas preocupações
vão se voltar para a próxima fase desta magnífica, desafiante e
recompensadora experiência que chamamos de
maternidade/paternidade.
Retirado do livro "Soluções para Noites Sem Choro", de Elizabeth
Pantley
Quando há troca do seio materno por um consolo oral em objetos a
tendência é de um apego a objetos oralizantes, num hábito
prolongado.
Preciso tomar medicamentos e o médico ordenou o desmame!
A maioria dos medicamentos é compatível com amamentação. Pesquise
antes de promover um desmame precoce.
Não conheço nenhum bebê maior de 1 ano que mama no peito, não é
hora de desmamar?
Apoio às mães que amamentam após um ano
Por Carlos González
As mães que continuam amamentando após um ano enfrentam muitos
problemas, sobretudo devido às críticas de quem crê que isso "não é
normal" e as ameaçam com todo tipo de doenças e catástrofes. Na
realidade, não se conhece qual é a idade "natural" do desmame no
ser humano. Cada cultura tem a esse respeito seus próprios
costumes, apesar de que nenhuma desmama tão cedo quanto á cultura
ocidental do século XX.
A antropóloga norte-americana Katherine Dettwyler abordou a questão
a partir da zoologia comparada, generalizando uma hipotética idade
para o desmame no ser humano a partir dos dados referentes a outros
primatas, a partir de vários parâmetros que se correlacionam de
forma mais ou menos exata com a amamentação:
a) Segundo o peso do nascimento: costuma-se dizer que os mamíferos
se desmamam quando triplicam o peso do nascimento. Isso só é válido
para os animais pequenos; os animais de tamanho parecido com o
nosso se desmamam após quadruplicar o peso do nascimento, o que
seria aproximadamente aos dois anos e meio;
b) Segundo o peso do adulto: muitos mamíferos se desmamam ao
alcançar aproximadamente a terça parte do peso do adulto. Como em
nossa espécie o homem adulto é maior, isso representaria um desmame
mais tardio: os meninos com sete anos (ao alcançar os 23 kg), e as
meninas um pouco antes dos seis anos (com 19 kg);
c) Segundo o peso da mãe: os pesquisadores Harvey e Clutton-Brock
constataram que, em um grande número de primatas, a idade do
desmame em dias é igual ao peso de uma fêmea adulta em gramas
multiplicado por 2,71. Aplicando essa fórmula a uma mãe de 55
quilos, corresponderia a desmamar aos três anos e quatro
meses.
d) Segundo a duração da gestação: a relação entre a duração da
amamentação e a duração da gestação é muito variável entre os
primatas, mas parece ter relação com o tamanho dos indivíduos. Nos
macacos pequenos, essa relação costuma ser inferior a dois; mas
entre nossos parentes mais próximos (em parentesco e tamanho), a
relação é de 6,4 para o chimpanzé e de 6,18 para o gorila. Se
assumirmos que para o ser humano essa relação deverá ser também
superior a 6, o resultado é um mínimo de quatro anos e meio de
amamentação.
e) Segundo a dentição: o desmame pode acontecer em muitos primatas
quando ocorre a erupção do primeiro molar permanente, o que
corresponderia aos 6 anos do ser humano.
Em conclusão, Dettwyler supõe que a idade normal do desmame no ser
humano é entre os dois anos e meio e os sete anos.
No congresso espanhol de grupos de mães, ocorrido no ano de 2001 em
Zaragoza, realizamos uma pesquisa para averiguar qual era a duração
da amamentação entre as mães participantes, e que vantagens e
desvantagens encontravam as mães que amamentam bebês após um ano.
Trata-se de uma amostra altamente selecionada (mães com suficiente
interesse e meios econômicos para participar do evento), e que de
modo algum representa a sociedade espanhola. Mas nos permite
afirmar que a amamentação depois de um ano existe, ainda que seja
em um grupo pequeno.
Responderam ao questionário 95 mães que juntas têm 174 filhos.
Trabalham fora de casa 74, e 78 haviam amamentado mais de um ano.
Somente 15 mães haviam praticado amamentação tandem (ou seja,
amamentado dois filhos de idades diferentes ao mesmo tempo).
Portanto, não é preciso ser dona de casa para amamentar por mais de
um ano.
O resultado foi o seguinte:
Formação - Total - Amamentaram por mais de 1 ano. Isso contrasta
com a situação tradicional de algumas décadas, em que apenas as
mães pobres de zonas rurais amamentavam após 1 ano de idade. É
precisamente entre as mães mais cultas e informadas que se recupera
a prática da amamentação.
No momento da entrevista, 109 bebês haviam sido desmamados, com uma
idade média de 19,1 meses, enquanto que 65 seguiam mamando, com una
idade média de 20,9 meses. Ou seja, que já superaram a média e
continuam mamando, o que fará com que a média global aumente muito
quando ocorrer o desmame dessas 65 crianças.
A comparação entre os filhos de uma mesma mãe mostra também um
incremento progressivo na duração da amamentação. Entre 20 mães com
três filhos ou mais, a duração média da amamentação do primeiro
filho foi de 12,8 meses. Do segundo filho, um (50 meses) ainda
mamava, e os demais haviam sido desmamados com uma idade média de
19,3 meses. Do terceiro filho, 13 seguiam mamando (idade média de
25,9 meses) e 7 estavam desmamados (com média de idade de 29,3
meses). Podemos dizer que a amamentação prolongada foi tão
satisfatória para essas mães, que repetiram e aumentaram a dose com
os demais filhos. Com certeza, também há mães que não tiveram uma
experiência satisfatória na amamentação, e é provável que estas
mães não participem de congressos de amamentação.
Responderam da seguinte forma à pergunta de se as pessoas
relacionadas apoiaram ou criticaram a amamentação (pergunta feita a
todas as mães, incluindo as que desmamaram antes de 1 ano de
idade):
Considerando que cada mãe pode ter vários amigos ou vários
pediatras, alguns grupos apareciam ao mesmo tempo aprovando e
criticando. Observamos que o papel dos profissionais de saúde é em
geral negativo, salvo no caso das parteiras. E, em todo caso,
parecem influenciar menos, tanto para o bem como para o mal, que
parentes e amigas. Como se nos mantivéssemos à margem.
Destaque muito positivo para o papel do marido, que quase nunca
critica e que é a pessoa que mais aprova. Duvidamos que isto
reflita um grande interesse pela amamentação entre os maridos
espanhóis em geral, e achamos que, na verdade, aconteceu uma
seleção natural: o apoio incondicional do marido é quase
imprescindível para que uma mãe consiga a amamentar, desfrutar da
sua experiência, envolver-se num grupo de apoio e participar de um
congresso sobre amamentação. Por último, perguntamos o que foi mais
agradável e o que foi mais desagradável ao amamentar bebês maiores
de 1 ano:
O que é mais agradável ao amamentar bebês maiores de 1 ano:
Contato físico, olhar, vínculo - 36
Relação especial, amor, algo teu - 34
Felicidade materna, realização pessoal - 20
Comodidade e liberdade - 14
O melhor alimento - 12
Bebê feliz - 10
Consolo ou calma para o bebê - 8
É algo natural - 3
Mais saudável para o bebê - 6
Carinho - 1
O que é mais desagradável ao amamentar bebês maiores de 1
ano:
Críticas de outras pessoas - 33
Nada - 14
Mamadas noturnas - 10
Pedir muito quando a mãe não deseja - 4
Difícil de conciliar com irmãos maiores - 4
Mordidas - 4
Desmame - 4
Falta de informação profissional e de apoio social - 4
Dependência - 4
Sensação de que não vai deixar de mamar - 2
Não poder sair de noite - 2
Dificuldade para conciliar com inquietudes maternas - 2
Desinformação (medo absurdo) - 1
Problemas mamários (mastites, rachaduras) - 1
Angústia - 1
Conforme era esperado, essas mães encontram muito mais satisfações
que problemas (de outro modo, não o teriam feito). Entre as
vantagens se dá muito mais importância aos aspectos afetivos e
psicológicos que à nutrição e à saúde física; enquanto que entre os
inconvenientes destacam-se as críticas recebidas de outras pessoas,
e um grande número de mães espontaneamente afirmam que não houve
nada desagradável em sua experiência.
Portanto, a amamentação após um ano de idade do bebê é uma
realidade entre algumas mulheres espanholas, sobretudo de classe
média-alta, e parece que a prática está crescendo. É preciso que
nós profissionais de saúde adotemos um papel mais efetivo de apoio
às mães que amamentam, e que contribuamos na educação da população
para que estas mães recebam o respeito que merecem.
Fonte: Stuart-Macadam P, Dettwyler K. Breastfeeding. Biocultural
perspectives. Aldine de Gruyter, New York, 1995.
Tradução: Fernanda Mainier
Revisão: Luciana Freitas
Original em espanhol:
http://www.dardemamar.com/Lactancia_prolongada_por_Carlos_Gonzalez.pdf
Acho que chegou mesmo a hora e não quero esperar pelo desmame
espontâneo, como faço o desmame gradual?
Dicas do livro "Gentle Baby care", de Elizabeth Pantley
Primeira é importante a questão: PORQUE desmamar? Pergunte-se a
razão da sua decisão. Não há uma época definida para o desmame,
pois esse processo é muito diferente para cada mamãe e bebê. Não há
uma razão padrão para a decisão do desmame. As razões são tão
variadas quanto ás próprias mães e crianças amamentadas. Cada filho
seu vai precisar de uma decisão separada sobre o desmame.
1) devagar é melhor: se você permitir que o processo ocorra
gradualmente (num período de alguns meses), seu bebe e seu corpo
irão se ajustando fazendo o processo mais fácil para ambos.
2) o primeiro passo para o desmame: tente o método: "não ofereça,
não recuse": Isso funciona como um "teste" de quão fácil ou difícil
o desmame será. Continue amamentando quando seu bebe pedir, mas não
ofereça o tempo todo, automaticamente como algumas mães até
acostumam a fazer.
O que pode ser surpreendente é descobrir que algumas crianças estão
tão prontas quanto às mães para começar o processo de desmame.
Nesse caso, elas estarão abertas a uma rotina que não inclua
amamentação.
3) distração funciona! Bebes são ativos, ocupados sempre, tire
proveito dessa característica e tente distrai-lo com alguma coisa
na hora que ele pede para mamar. Por exemplo, se seu filho
geralmente mama quando acorda, você pode chegar com um brinquedo
legal ou abrir as janelas e convide-o para ver os passarinhos lá
fora. Nas primeiras vezes que você fizer isso seu bebe pode ficar
confuso e reclamar um pouco, mas persista um pouco com a distração.
Tente mais algumas vezes, mas se o bebe reclamar, chorar muito,
amamente. Continue tentando de novo mais pra frente, um belo dia
seu bebe vai te surpreender e pedira pra abrir a janela para ver os
passarinhos. Na hora de dormir, uma dica: se você sempre da de
mamar apos contar uma estória, prolongue essa estória de modo que
ele durma antes do fim.
4) Num minutinho: a tática do "atraso": "Você pode mamãe, depois
que eu terminar de dobrar as roupas", ai quando você olhar ele vai
estar ocupado com outras coisas. Ofereça o peito apos terminar com
as roupas, se seu bebe ainda quiser. Isso reforça a confiança e
mostra ao seu bebe que você não esta ignorando suas necessidades.
Você pode até tentar mais atraso: "Vamos esperar a hora da
soneca".
Isso pode ser um modo efetivo de reduzir o número de sessões de
amamentação diária.
5) Substitua leite materno por comidas sólidas: Outra técnica que
pode ajudar é substituir a mamada por mais comidas (se seu bebe já
come e gosta comidas solidas, mais de 1 ano de idade). Se isso já
acontece você pode tentar substituir outras formas de conforto e
atenção das mamadas por coisas como ler livros, abraços, brincar
juntos.
6) Evite seus cantinhos de mamar: a maioria das mães tem um ou dois
lugares favoritos para mamar, uma poltrona por exemplo. Se você
quiser encorajar o desmame evitar esses lugares que podem despertar
no seu bebe o desejo de mamar. Encontre outros lugares e combine
essa dica com a técnica de distração (número 3).
7) Encurte as sessões de mamar: outro passo em direção ao desmame é
encurtar o tempo que você geralmente amamenta seu filho, e tente
incluir uma distração no final da sessão.
8) Substitua brincar por mamar: Algumas mães (as vezes mesmo sem
perceber) usam a hora de amamentar como uma maneira de ter um tempo
quieto e relaxante com seus bebes. Faça uma decisão consciente de
substituir essa sessão de mamar por uma sessão de brincadeiras, em
que você da atenção completa o tempo todo. Seu bebe pode ficar tão
contente com isso que poderá até esquecer de pedir para
mamar.
10) A dança do desmame: não se surpreenda se seu bebe "captar" seu
desejo de desmamar e de repente pedir para mamar como um
recém-nascido! Essa é uma resposta natural a uma grande mudança na
vidinha deles. Se você atender os desejos e der de mamar por 1-2
dias, isso geralmente passa, e você pode seguir em frente na
direção do desmame de novo.
Geralmente o progresso de amamentar o tempo todo- não amamentar NÃO
'é uma linha reta, 'é mais como uma dança. Mas se você guiar essa
dança com afeto e sensibilidade, você acabara dançando no ritmo que
escolheu.
Livros recomendados: "How weaning happens", Diane Bengson, La Leche
League International, 2000.
"Mothering your nursing toddlre", Norma Jane Bumgarner,La Leche
League International, 2000
Desmame: fatos e mitos
O texto é do Boletim Cientifico da Sociedade de Pediatria do Rio
Grande do Sul, maio de
2005.
Elsa Regina Justo Giugliani*
O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a
cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado
por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por
fatores
socioculturais. Hoje, ao contrário do que ocorreu por pelo menos
dois milhões de anos, ao longo da evolução da espécie humana, a
mulher opta (ou não) pela amamentação e, influenciada por múltiplos
fatores, decide por quanto tempo vai (ou pode) amamentar. Muitas
vezes, as preferências
culturais (não amamentação, introdução precoce de outros alimentos
na dieta da criança, amamentação de curta duração) entram em
conflito com a expectativa da espécie. Algumas consequências dessa
divergência já puderam ser observadas, como desnutrição e alta
mortalidade infantis, sobretudo em áreas menos desenvolvidas.
Porém, as consequências a longo prazo ainda não são totalmente
conhecidas, já que transformações genéticas não ocorrem com a
rapidez com que podem ocorrer mudanças de hábitos. Começam a ser
mostradas evidências de que o não amamentar segundo as expectativas
da espécie pode ter repercussões negativas ao longo da vida dos
indivíduos. Assim, a não-amamentação ou amamentação sub-ótima podem
favorecer o aparecimento de doenças alérgicas, diversas doenças do
sistema imunológico, alguns tipos de cânceres, obesidade, diabete e
doenças cardiovasculares, além de interferir negativamente no
desenvolvimento oro-facial. Provavelmente, com o aparecimento de
novas pesquisas nessa área, outros males serão relacionados com os
hábitos "modernos" de alimentação infantil, mas alguns
aspectos
dificilmente podem ser quantificados, especialmente os relacionados
com a
psique humana.
Atualmente, em especial nas sociedades ocidentais, a amamentação é
vista primordialmente como uma forma de alimentar a criança, sob o
controle total dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da
amamentação como um processo mais amplo, complexo, envolvendo
intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e no
desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, além de
repercussões para a saúde física e psíquica da mãe. Hoje, em muitas
culturas "modernas", a amamentação prolongada (cujo conceito varia
de acordo com a "convenção" da época e do local) frequentemente é
vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê.
Quadro 1 - Sinais sugestivos de que a criança está madura para o
desmame mãe e bebê.
Idade maior que um ano. Menos interesse nas mamadas. Aceita
variedade de outros alimentos. É segura na sua relação com a mãe.
Aceita outras formas de consolo. Aceita não ser amamentada em
certas ocasiões e locais. Às vezes dorme sem mamar no peito. Mostra
pouca ansiedade quando encorajada a não amamentar. Às vezes prefere
brincar ou fazer outra atividade com a mãe ao invés de mamar.
Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um
processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do
desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr,
falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar
antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes
de atingir a maturidade para tal.
Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um
antigo pediatra, recomendava: "Não
limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga
os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do
seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma
criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta,
corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional". Essas
palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades
individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização
do ser humano, substituindo o seio por métodos de autoconsolo como
chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc. Segundo diversas
teorias, o período natural de amamentação para a espécie humana
seria de 2,5 a sete anos. Atualmente, a Organização Mundial da
Saúde recomenda aleitamento materno por dois anos ou mais, sendo
exclusivo nos primeiros seis meses. Apesar dessa recomendação,
poucas mulheres no Brasil amamentam por mais de dois anos.
As razões para a não amamentação prolongada variam desde
dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades, até
crença de que aleitamento materno além do primeiro ano é danoso
para a criança sob o ponto-de-vista psicológico. Uma parcela de
mães, apesar de demonstrar desejo em continuar a amamentação,
sente-se pressionada a desmamar por profissionais de saúde, seus
maridos, parentes, vizinhos e amigos.
Para a manutenção do paradigma que sustenta a afirmação de que
amamentação prolongada não é natural, foi necessário criar vários
mitos, tais como o de que uma criança jamais desmama por si
própria, que a amamentação prolongada é um sinal de problema sexual
ou necessidade materna e não da criança e que a criança que mama
fica muito dependente.
Algumas mães, de fato, desmamam para promover a independência da
criança. No entanto, é importante lembrar que o desmame
provavelmente não vai mudar a personalidade da criança. Além disso,
o desmame forçado pode gerar insegurança na criança, o que
dificulta o processo de independização.
O desmame pode ser agrupado em quatro categorias básicas: abrupto,
planejado ou gradual, parcial e natural. Sob a ótica de que o
desmame é um processo de desenvolvimento da criança, parece
razoável afirmar que o ideal seria que ele ocorresse naturalmente,
na medida em que a criança vai adquirindo
competências para tal. No desmame natural, a criança se
autodesmama, o que pode ocorrer em diferentes idades, em média
entre dois e quatro anos e raramente antes de um ano. Costuma ser
gradual, mas às vezes pode ser súbito como, por exemplo, em uma
nova gravidez da mãe (a criança pode estranhar o gosto do leite,
que se altera, e o volume, que diminui). A mãe também participa
ativamente no processo, sugerindo passos quando a criança estiver
pronta para aceitá-los e impondo limites adequados à idade. O
Quadro 1 apresenta os sinais indicativos de que criança pode estar
pronta para iniciar o desmame. É importante que a mãe não confunda
o autodesmame natural com a chamada "greve de amamentação" do bebê.
Esta ocorre principalmente em crianças menores de um ano, é de
início súbito e inesperado, a criança parece insatisfeita e em
geral é possível identificar uma causa: doença, dentição,
diminuição do volume ou sabor do leite, estresse e excesso de
mamadeira ou chupeta.
Essa condição usualmente não dura mais que 2-4 dias. Algumas
vantagens do desmame natural encontram-se no Quadro 2.
O desmame abrupto é desencorajado, pois se a criança não está
pronta, ela pode se sentir rejeitada pela mãe, gerando insegurança
e muitas vezes rebeldia. Na mãe, o desmame abrupto pode precipitar
ingurgitamento mamário, bloqueio de ducto lactífero e mastite, além
de tristeza ou depressão, por luto pela perda da amamentação ou por
mudanças hormonais. Muitas vezes a mulher se depara com a situação
de querer ou ter que desmamar antes de a criança estar pronta.
Nesses casos, o profissional de saúde, em especial o pediatra, deve
respeitar o desejo da mãe e ajudá-la nesse processo.
O Quadro 3 apresenta os fatores que facilitam o encorajamento do
bebê para o
desmame. A técnica utilizada para fazer a criança desmamar varia de
acordo com a idade da mesma. Se a criança for maior, o desmame pode
ser planejado com ela. Pode-se propor uma data, oferecer uma
recompensa e até mesmo uma festa. A mãe pode começar não oferecendo
o seio, mas também não recusando. Pode também encurtar as mamadas e
adiá-las. Mamadas podem ser suprimidas distraindo a criança com
brincadeiras, chamando amiguinhos, entretendo a criança com algo
que lhe prenda a atenção. A participação do pai no processo, sempre
que possível, é importante.
A mãe pode também evitar certas atitudes que estimulam a criança a
mamar, por exemplo, não sentar na poltrona em que costuma
amamentar. Algumas vezes, o desmame forçado gera tanta ansiedade na
mãe e no bebê, que é preferível adiar um pouco mais o processo, se
possível. A mãe pode,
também, optar por restringir as mamadas a certos horários e
locais.
Quadro 3 - Encorajando o bebê a desmamar: facilitadores
Mãe segura de que quer (ou deve) desmamar. Entendimento da mãe de
que o processo pode ser lento e demandar energia, tanto maior
quanto menos pronta estiver a criança. Flexibilidade, pois o curso
é imprevisível. Paciência (dar tempo à criança) e
compreensão.
Suporte e atenção adicionais à criança - mãe não deve se afastar
neste período. Ausência de outras mudanças ocorrendo, como, por
exemplo, controle dos esfíncteres. Sempre que possível, desmame
gradual, retirando uma mamada do dia a cada 1-2 semanas.
As mulheres devem estar preparadas para as mudanças físicas e
emocionais que o desmame pode desencadear, tais como: mudança de
tamanho das mamas, mudança de peso e sentimentos diversos, tais
como alívio, paz, tristeza, depressão, culpa e arrependimento. Já
se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos
tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses
na década de 30 para dois anos, ou mais, nos dias de hoje.

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